A técnica Delphi busca consenso entre especialistas por meio de rodadas sucessivas de questionário, com duas regras que a definem: os participantes não se conhecem entre si e, a cada rodada, recebem o resultado agregado do grupo antes de responder de novo. É usada quando não existe dado empírico disponível e o melhor acesso ao problema é o julgamento de quem entende dele.
O que define uma Delphi
Criada na RAND Corporation nos anos 1950 para previsão tecnológica, a técnica assenta em três características que precisam estar todas presentes — sem elas, o que você tem é outra coisa com nome emprestado.
| Característica | O que significa na prática | Para que serve |
|---|---|---|
| Anonimato entre os participantes | Ninguém sabe quem mais está no painel nem quem respondeu o quê | Elimina a pressão de hierarquia e de personalidade forte |
| Iteração com devolutiva controlada | Cada rodada devolve o resultado agregado da anterior | Permite rever a posição diante do grupo, sem confronto |
| Resposta estatística do grupo | O resultado é apresentado como medida agregada, não como voto vencedor | Preserva a dispersão em vez de escondê-la |
O contraste com o grupo focal esclarece a escolha: no grupo focal, a interação face a face é o instrumento — você quer ver o debate acontecer. Na Delphi, a interação direta é justamente o que se quer evitar, porque a pessoa mais graduada ou mais falante distorce o resultado. Se o seu objetivo é observar como o grupo negocia sentidos, use grupo focal, descrito em grupo focal e entrevista semiestruturada.

Quando faz sentido no TCC
A Delphi resolve um problema específico: a pergunta não tem resposta em dado observável, seja porque trata do futuro, seja porque o campo ainda não consolidou parâmetro.
- Validar um instrumento que você mesmo construiu — um questionário, um roteiro, uma escala — submetendo os itens a juízes da área.
- Construir um protocolo ou checklist quando não existe padrão publicado.
- Priorizar entre muitas alternativas: quais indicadores importam, quais competências são essenciais.
- Antecipar tendências de um setor, uso original da técnica.
- Adaptar um instrumento estrangeiro ao contexto brasileiro, verificando se cada item faz sentido aqui.
O primeiro uso é o mais comum em TCC brasileiro, sobretudo em saúde e educação: você desenvolve o instrumento, submete a um painel, ajusta com base nos pareceres e só então aplica. Nesse caso a Delphi é uma etapa do trabalho, não o trabalho inteiro — e vale dizer isso na metodologia.
Quando não usar: se existe dado empírico acessível, colete o dado. Consultar especialistas sobre algo que se pode medir é substituir evidência por opinião, e a banca pergunta por quê.
Montar o painel de especialistas
Aqui está a decisão que mais compromete trabalhos na área, porque “especialista” não é uma categoria óbvia. Você precisa definir critérios de elegibilidade explícitos e verificáveis antes de convidar ninguém — e apresentá-los na metodologia.
Critérios que costumam ser usados, isolados ou combinados: titulação mínima, tempo de atuação na área, produção publicada sobre o tema, experiência prática assistencial ou docente, atuação em serviço de referência. Vários trabalhos adotam um sistema de pontuação em que o convidado precisa somar um mínimo para entrar.
Sobre o tamanho: não existe número consagrado, e desconfie de quem afirmar que existe. O que a literatura indica é que painéis homogêneos se estabilizam com menos participantes que painéis heterogêneos, e que o critério relevante é a composição — cobrir as perspectivas que importam ao problema — e não o número absoluto. Declare quantos convidou, quantos aceitaram e quantos concluíram cada rodada.
Isso leva ao ponto que mais derruba Delphi de graduação: a perda entre rodadas. Especialistas são pessoas ocupadas respondendo de graça, e a taxa de resposta cai a cada rodada. Planeje convidar com folga, combine prazos realistas e mantenha o questionário curto — um instrumento longo na primeira rodada garante evasão na segunda. Como o painel é composto por pessoas, a pesquisa envolve seres humanos e a submissão prévia se aplica, conforme comitê de ética e Plataforma Brasil.

As rodadas, uma a uma
Rodada 1
Duas variantes. Na Delphi clássica, a primeira rodada é aberta: perguntas amplas para que os especialistas gerem os itens, que você depois categoriza. Na Delphi modificada — mais comum em TCC, por caber no prazo —, você já apresenta uma lista derivada da literatura e pede avaliação item a item, com espaço para acrescentar o que faltou.
Se você usar a versão modificada, diga isso com todas as letras e explique de onde veio a lista inicial. Apresentar uma Delphi modificada como clássica é impreciso e facilmente detectável.
Rodada 2
Você devolve ao painel o resultado agregado da rodada 1 — a medida de tendência central, a dispersão, e os comentários anonimizados — e pede que cada um reavalie os itens à luz disso. Itens que já alcançaram o critério de consenso podem sair do questionário, encurtando-o e reduzindo a evasão.
Rodada 3 e seguintes
Repete-se o procedimento até que o critério de parada seja atingido. Duas ou três rodadas são o mais frequente; passar disso costuma cansar o painel sem alterar o resultado.
Defina o critério de parada antes de começar. Ele pode ser: o consenso foi atingido nos itens; a estabilidade foi alcançada, ou seja, as respostas pararam de mudar de forma relevante entre rodadas; ou o número máximo de rodadas previsto foi cumprido. Parar quando o resultado agrada é viés, e é a crítica mais séria que se pode fazer a um trabalho com essa técnica.
Definir consenso antes de coletar
Este é o ponto em que mais gente escorrega. Não existe patamar universal de consenso. A literatura usa critérios variados, e o que a banca cobra não é que você adote determinado número — é que você declare o seu critério antes da coleta e o mantenha.
| Critério | Como funciona | Observação |
|---|---|---|
| Percentual de concordância | Proporção de especialistas que concordam com o item | Patamares de 70% e 80% são os mais adotados |
| Mediana e intervalo interquartil | Consenso quando a dispersão fica abaixo de um limite | Preferível com escalas ordinais |
| Índice de validade de conteúdo | Razão entre avaliações favoráveis e total | Comum na validação de instrumentos em saúde |
| Estabilidade entre rodadas | As respostas param de mudar | Pode ocorrer sem que haja concordância |
Duas observações que valem uma seção da sua discussão. A primeira: estabilidade não é concordância — um painel pode estabilizar dividido, e isso é um achado, não uma falha. A segunda: a ausência de consenso é resultado. Se os especialistas divergem persistentemente sobre um item, você descobriu que o campo não tem posição consolidada ali, e isso é informação legítima. Descartar o item para “limpar” o resultado é que seria problema.
Se os itens forem avaliados em escala, a construção e a análise dela estão em escala Likert: como usar e analisar, e a montagem do formulário em questionário de pesquisa no Google Forms.

O que relatar na metodologia
- A variante usada — clássica ou modificada — e, se modificada, a origem da lista inicial.
- Critérios de elegibilidade dos especialistas, com a forma de verificação.
- Quantos foram convidados, aceitaram e concluíram cada rodada, com os motivos de saída quando conhecidos.
- O instrumento de cada rodada, em geral reproduzido em apêndice.
- O critério de consenso e o critério de parada, declarados a priori.
- Como a devolutiva foi apresentada ao painel entre rodadas.
- Como o anonimato foi mantido.
Um parágrafo-modelo para adaptar:
Aplicou-se a técnica Delphi em sua variante modificada, com duas rodadas conduzidas por formulário eletrônico. A lista inicial de itens foi derivada da revisão de literatura. Foram convidados 24 especialistas selecionados por critérios de titulação e tempo de atuação na área, dos quais 18 responderam à primeira rodada e 15 à segunda. Os participantes não tiveram acesso à identidade dos demais. Adotou-se como critério de consenso a concordância de pelo menos 80% do painel, definido previamente à coleta, e como critério de parada o alcance do consenso ou o limite de duas rodadas.
Note o que esse parágrafo faz: nomeia a variante, torna as perdas visíveis e fixa os critérios como anteriores à coleta. É a mesma disciplina de declarar limitações que sustenta a pesquisa quase-experimental, e o enquadramento geral do desenho está em delineamento da pesquisa. Os critérios de elegibilidade seguem a mesma lógica descrita em critérios de inclusão e exclusão.
Perguntas frequentes
O que é a técnica Delphi?
É um método que busca consenso entre especialistas por meio de rodadas sucessivas de questionário, com anonimato entre os participantes e devolutiva agregada do grupo a cada rodada. Foi criada na RAND Corporation nos anos 1950 para previsão tecnológica.
Quantos especialistas preciso no painel?
Não há número consagrado. Painéis homogêneos costumam estabilizar com menos participantes que painéis heterogêneos, e o critério relevante é cobrir as perspectivas que importam ao problema. O que a banca cobra é que você declare os critérios de elegibilidade e informe quantos convidou, aceitaram e concluíram cada rodada.
Quantas rodadas uma Delphi precisa ter?
Duas ou três são o mais frequente. O que define o encerramento é o critério de parada declarado antes da coleta: consenso atingido, estabilidade das respostas ou número máximo de rodadas previsto.
Qual percentual define consenso na Delphi?
Não existe patamar universal. Percentuais de 70% e 80% são os mais adotados, mas também se usam mediana com intervalo interquartil, índice de validade de conteúdo e estabilidade entre rodadas. O essencial é declarar o critério antes de coletar e mantê-lo.
Qual a diferença entre Delphi e grupo focal?
No grupo focal a interação face a face é o instrumento — você quer observar o debate. Na Delphi a interação direta é evitada, justamente para que hierarquia e personalidade não distorçam o resultado; os participantes respondem separadamente e em anonimato.
Delphi precisa de comitê de ética?
Como o painel é composto por pessoas, a pesquisa envolve seres humanos e a submissão prévia se aplica, com aprovação anterior a qualquer convite ou coleta. Confirme o procedimento na sua instituição.
E se os especialistas não chegarem a consenso?
Isso é resultado, não falha. Divergência persistente indica que o campo não tem posição consolidada naquele ponto, e deve ser relatada como achado. Descartar itens divergentes para uniformizar o resultado é que seria um problema metodológico.
